Arquitectura Clandestina – Casa em Santa Vitória, Beja
À cerca da arquitectura popular “clandestina” , por Miguel Coutinho, Setembro 2011
“O caso clandestino, com o seu modo de produzir cidade, não é o único da arquitectura. Mas, pela sua espontaneidade, é, decerto e cada vez mais, um dos caminhos que poderá exprimir a continuidade e renovação de uma tradição.”
A arquitectura clandestina é, como o próprio nome indica, marginal e sem exibicionismos. Produzida de modo enigmático: um acontecimento que faz uso de sínteses simples (as possíveis), sem qualquer preocupação por formalismos exagerados. Tudo isso confere-lhe uma maiorsobriedade que, de resto e tal como aconteceu com o caso do Inquérito, seria indubitavelmente contrariada se tivesse mais recursos à sua disposição. Mas apesar da sua natureza e escala, que ainda nossão estranhas, é resultado, mesmo assim, de uma operação que não censura as matrizes do território em que actua. (…)
A construção da cidade clandestina será fruto de uma intuitiva adequação entre as premissas ou códigos de habitar tradicionais e a funcionalidade moderna, unidos à volta de um mesmo propósito: a procura de novas formas de habitar. Afinal, a casa clandestina afigura-se como o momento inicial de algo novo, na tentativa de se mostrar capaz de atender a esta nova exigência.(…)
Torna-se então urgente indicar que a dimensão que este fenómeno atingiu é um prenúncio do insucesso das políticas habitacionais que têm sido praticadas. E o impacto visual dos aglomerados espontâneos afigura-se cada vez m
aior. E isso é fundamental. Resulta numa zona de transição que, por sua vez, não é rural nem urbano nem suburbano. É um espaço híbrido, se quisermos citar João Leal. Uma hibridez que se estende à própria arquitectura. Denuncia, talvez, uma pista para perceber a imagem do país actual. Como se fosse a sua metáfora. (…)
O caso clandestino, por tudo o que foi exposto, possibilita olhar para a arquitectura popular como algo evolutivo. Só que estas formas que são descritas não correspondem ao popular do inquérito. Poderão ser consideradas tipologias rurais, mas que mudaram de contexto e de significado. Que progrediram com a contínua assimilação de novos princípios e técnicas. São metamorfoseadas por um olhar recente. Aliás, por vezes até por um olhar erudito, onde alcançam uma qualidade estética[1]. Permite-nos, antes de mais, descrever duas fases da mesma arquitectura popular, com um intervalo de meio século. E, simultaneamente, continuar a seguir o seu desenvolvimento.(…)
Finalmente, pode certamente argumentar-se que “as casas de hoje terão de nascer de nós, isto é, terão de representar as nossas necessidades, resultar das nossas condições e de todaa série de circunstâncias dentro das quais vivemos, no espaço e no tempo”[2].
Não será exactamente esta a condição incontornável que a arquitectura clandestina representa?”



[1] Tomamos como exemplo a casa em Santa Vitória (Beja, 2003), do arquitecto Rui Mendes;
[2] TAVORA, Fernando. O problema da Casa Portuguesa. Cadernos de Arquitectura. Editorial Organizações Lda. Lisboa, 1947 p.9.
Categoria: Arquitectura
















