No Estúdio de Alberto Giacometti

| Junho 7, 2012 | Comentários

Alberto Giacometti (1910-1966) foi um artista suíço, que teve um grande destaque no mundo artístico pela forma como representava o corpo humano. As suas esculturas de bronze, em que a figura humana se apresenta demasiado esguia e comprida, apresentam-nos algo de muito único e pessoal, entre o formalismo e o expressionismo, que não é surrealista, pois existe uma intenção do escultor de imitar a realidade.

A sua técnica de desenhar é muitas vezes relembrada nos dias de hoje como inspiração para exercícios de desenho.

O seu trabalho tornou visível o sentimento de solidão e fragilidade, que a literatura existencialista atribui à condição humana, e intrigou muitos intelectuais da sua época. Um deles foi o escritor e dramaturgo francês Jean Genet que acompanhou o seu processo de trabalho, publicando L’Atelier D’Alberto Giacometti (O Estúdio de Alberto Giacometti) em 1957, de onde foram retirados os seguintes excertos.

”Há quatro anos, não mais, no comboio, ia sentado à minha frente no compartimento um velhote medonho. Sujo e manifestamente mau, como veio a provar-se por algumas das suas reacções. Recusando-me prosseguir uma conversa nada agradável, tentei ler mas não conseguia evitar olhá-lo: o velhote era feíssimo. Os seus olhos, costuma dizer-se, cruzaram os meus, já não recordo se por instantes ou não, e senti o doloroso – sim, o doloroso sentimento de que qualquer homem valia exactamente – desculpem, mas pretendo pôr antes o acento em exactamente - o mesmo que outro qualquer. ‘Quem quer que seja, pensei eu, pode ser amado apesar da fealdade, da tolice, da malvadez.’

Um olhar apenas, demorado ou fugaz, preso ao meu, revelador. E o mesmo que possibilita o homem ser amado apesar da fealdade e da malvadez, permite que até amemos estas. Sem equívoco: não se tratava de bondade minha, mas de evidência. O olhar de Giacometti vira isso há muito, e no-los restituiu. Digo o que sinto: julgo que o manifesto parentesco das figuras está nesse ponto precioso onde o ser humano reaverá quanto tem de mais irredutível: a solidão de ser seguramente igual a tantos outros.”

”Ele pinta assim: recusa marcar diferenças de ‘nível’ – ou de plano – entre as várias partes do rosto. A mesma linha, ou conjunto de linhas, pode abranger o olho, a face e a sobrancelha. Nunca os olhos são azuis, nem as faces rosadas, nem a sobrancelha negra e curva: uma linha contínua forma o olho, a face, e a sobrancelha. Não há sombra do nariz sobre o rosto, ou antes, a existir, essa sombra deve ser entendida como parte integrante do mesmo, com idênticos traços, curvas, todos igualmente válidos.”

”Giacometti não trabalha para os contemporâneos nem para as gerações futuras: ele esculpe estátuas que arrebatam enfim os mortos.”

Revisão: Sara Cabral.

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Categoria: Artes Plásticas

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